Acordei muito antes da hora de acordar. Assustado e com o coração a bater tipo motor que vai a baixo. Levantei-me da cama e fui ao escritório, que fica a poucos passos do quarto onde liguei o computador para me refugiar na Net. Tinha tido um pesadelo e perdi o sono.
Estava eu na casa dos meus pais no bairro malangino, sito no Golf 1 (zona suburbana de Luanda), onde nasci e cresci. O meu bairro sempre foi famoso por causa da violência com que se resolve os problemas lá. Não é atoa que aos visitantes se dizia em tom mais ameaçador do que de advertência: “Xé, aqui é no beirinha, é saber andar, viver não custa”.
Havia ainda outras dicas ou “conselhos” que ficaram famosos, tais como “malangino não paga renda” ou “prefiro a morte do que a vingança” ou ainda “vou te cumprir!”. Essa última frase só era invocada quando alguém insultasse ou faltasse com respeito ao outro. E tinha de ser dita com uma faca ou garrafa na mão, ou qualquer coisa que pudesse tratar o focinho do oponente para impor “respeito”.
Enfim, o meu bairro malangino sempre foi caracterizado pela pobreza extrema, pela falta de saneamento básico e muita criminalidade. Mas também tinha muitas virtudes, só que menos divulgadas, como a solidariedade e o comunismo entre os vizinhos. “Mãe do outro é tua mãe”, se dizia. “O que dá para um dá para dois”, ou seja, devido a escassez de alimentos no tempo de guerra tudo que alguém tinha na cozinha, como sal, óleo alimentar, etc., era partilhável no seio da vizinhança:“Etu mu dietu!” (ditado no idioma Kimbundu que quer dizer “estamos entre nós”, “somos todos família”, fazendo alusão a proveniência comum da província de Malanje de onde 99% dos moradores era oriundo).
Voltando ao pesadelo que tive.
Estava na sala da casa dos meus pais, a fazer sei lá o quê (provavelmente a ler ou algo parecido) quando ouvi o tumulto que vinha do beco (no meu bairro só existe becos e ruelas). Levantei-me apressadamente para ver o que se passava e constatei, admirado, que alguém estava a ser barbaramente torturado com catana afiada por um afamado delinquente que só pensava na maldade.
Ele tinha o rosto suado e cheio de ódio pela pessoa que maltratava. Primeiro, amarrou-lhe as mãos com muita força e predominância sem que o outro conseguisse se safar. Depois, furou-lhe as orelhas espetando-lhes com uma enorme faca.
E para o terror e espanto de todos que assistiam à luta, empunhou a catana afiadíssima e cortou-lhe as duas orelhas a sangue frio. A vítima deu uns gritos estridentes antes de desmaiar (ou morreu? já nem lembro. Só sei que instantes depois do golpe ficou calado e imóvel).
Ele olhou a volta de si, de forma ameaçadora, apontando a catana ensanguentada e disse: “quem se meter ou quem mostrar minha casa vai se ver comigo!”
Estranhamente, olhou com os olhos bem acessos para mim. O que me fez virar automaticamente os meus olhos amedrontados para outro lugar. Foi nesse instante que acordei com o coração a bater depressa e preocupado com a violência no bairro que me viu nascer e crescer. (continue a ler o texto no meu blog, click no link a seguir).
Fiquei muito tempo a refletir e a tentar interpretar o pesadelo. Já não consegui dormir.
Antes de me levantar da cama, olhei à minha volta e vi minha esposa e os dois filhos menores dormirem tranquilamente. Notei que estava no quarto de um grande apartamento numa cidade nova de Luanda. Ao contrário da infância difícil que tive, os meus filhos dormiam em colchão de luxo, com lençóis e ar condicionado para combater o calor.
Fiquei feliz por eles, porque eu não tive isso na infância. Dormia no chão, deitado num simples luando (esteira) e num quarto escuro, cheio de mosquitos, baratas e percevejos para te sugar o sangue à noite, imerso no fumo do candeeiro à petróleo iluminante que pintava as narinas dum gajo com fumo preto, porque não existia luz elétrica. E para piorar, minha infância, como a de muitos contemporâneos dos anos 80, foi passada num clima de guerra civil.
Foi pensando nisso e noutras coisas, que cheguei a conclusão que afinal sou feliz e estou bem de vida. Estou melhor do que milhões de outros africanos que ainda sofrem da pobreza extrema e da violência diabólica. Agradeci a Deus no íntimo e comecei a perguntar-me: o que posso fazer para ajudar aqueles que continuam a viver a pobreza e a violência extrema nos bairros suburbanos?
É impossível traze-los todos para viver no meu apartamento e beneficiar da qualidade de vida que uma cidade nova proporciona. Mas também não sou rico para fazer muito. Mas sinto que algo posso fazer com o pouco que tenho, que se resumo basicamente em vários anos de experiencia de trabalho como jornalista e conhecimentos profissionais que posso partilhar gratuitamente com os meus conterrâneos, e não só.
Por isso, decidi transformar a residência anexa à casa dos meus pais num centro de formação. Nela vamos organizar e mobilizar voluntários para oferecer aulas de alfabetização para adultos, ensino primário gratuito para crianças órfãos e deficientes e convidaremos estrangeiros voluntários que trabalham em Angola, e não só, para oferecerem cursos profissionais aos jovens da comunidade.
Estou convicto de que uma das formas eficazes para combater a extrema pobreza, a violência e a criminalidade é promover a educação gratuita e cursos profissional gratuitos ou muito baratos e incentivar o empreendedorismo na comunidade. Essa será a minha missão de vida de hoje em diante. Haja sol ou chuva, haja apoios ou não, até os últimos dias da minha vida.
Você gostaria de se juntar a mim neste esforço? Se sim, por favor entre em contacto: franciscocafala@yahoo.com.br ou (+244) 921 386764.
Estava eu na casa dos meus pais no bairro malangino, sito no Golf 1 (zona suburbana de Luanda), onde nasci e cresci. O meu bairro sempre foi famoso por causa da violência com que se resolve os problemas lá. Não é atoa que aos visitantes se dizia em tom mais ameaçador do que de advertência: “Xé, aqui é no beirinha, é saber andar, viver não custa”.
Havia ainda outras dicas ou “conselhos” que ficaram famosos, tais como “malangino não paga renda” ou “prefiro a morte do que a vingança” ou ainda “vou te cumprir!”. Essa última frase só era invocada quando alguém insultasse ou faltasse com respeito ao outro. E tinha de ser dita com uma faca ou garrafa na mão, ou qualquer coisa que pudesse tratar o focinho do oponente para impor “respeito”.
Enfim, o meu bairro malangino sempre foi caracterizado pela pobreza extrema, pela falta de saneamento básico e muita criminalidade. Mas também tinha muitas virtudes, só que menos divulgadas, como a solidariedade e o comunismo entre os vizinhos. “Mãe do outro é tua mãe”, se dizia. “O que dá para um dá para dois”, ou seja, devido a escassez de alimentos no tempo de guerra tudo que alguém tinha na cozinha, como sal, óleo alimentar, etc., era partilhável no seio da vizinhança:“Etu mu dietu!” (ditado no idioma Kimbundu que quer dizer “estamos entre nós”, “somos todos família”, fazendo alusão a proveniência comum da província de Malanje de onde 99% dos moradores era oriundo).
Voltando ao pesadelo que tive.
Estava na sala da casa dos meus pais, a fazer sei lá o quê (provavelmente a ler ou algo parecido) quando ouvi o tumulto que vinha do beco (no meu bairro só existe becos e ruelas). Levantei-me apressadamente para ver o que se passava e constatei, admirado, que alguém estava a ser barbaramente torturado com catana afiada por um afamado delinquente que só pensava na maldade.
Ele tinha o rosto suado e cheio de ódio pela pessoa que maltratava. Primeiro, amarrou-lhe as mãos com muita força e predominância sem que o outro conseguisse se safar. Depois, furou-lhe as orelhas espetando-lhes com uma enorme faca.
E para o terror e espanto de todos que assistiam à luta, empunhou a catana afiadíssima e cortou-lhe as duas orelhas a sangue frio. A vítima deu uns gritos estridentes antes de desmaiar (ou morreu? já nem lembro. Só sei que instantes depois do golpe ficou calado e imóvel).
Ele olhou a volta de si, de forma ameaçadora, apontando a catana ensanguentada e disse: “quem se meter ou quem mostrar minha casa vai se ver comigo!”
Estranhamente, olhou com os olhos bem acessos para mim. O que me fez virar automaticamente os meus olhos amedrontados para outro lugar. Foi nesse instante que acordei com o coração a bater depressa e preocupado com a violência no bairro que me viu nascer e crescer. (continue a ler o texto no meu blog, click no link a seguir).
Fiquei muito tempo a refletir e a tentar interpretar o pesadelo. Já não consegui dormir.
Antes de me levantar da cama, olhei à minha volta e vi minha esposa e os dois filhos menores dormirem tranquilamente. Notei que estava no quarto de um grande apartamento numa cidade nova de Luanda. Ao contrário da infância difícil que tive, os meus filhos dormiam em colchão de luxo, com lençóis e ar condicionado para combater o calor.
Fiquei feliz por eles, porque eu não tive isso na infância. Dormia no chão, deitado num simples luando (esteira) e num quarto escuro, cheio de mosquitos, baratas e percevejos para te sugar o sangue à noite, imerso no fumo do candeeiro à petróleo iluminante que pintava as narinas dum gajo com fumo preto, porque não existia luz elétrica. E para piorar, minha infância, como a de muitos contemporâneos dos anos 80, foi passada num clima de guerra civil.
Foi pensando nisso e noutras coisas, que cheguei a conclusão que afinal sou feliz e estou bem de vida. Estou melhor do que milhões de outros africanos que ainda sofrem da pobreza extrema e da violência diabólica. Agradeci a Deus no íntimo e comecei a perguntar-me: o que posso fazer para ajudar aqueles que continuam a viver a pobreza e a violência extrema nos bairros suburbanos?
É impossível traze-los todos para viver no meu apartamento e beneficiar da qualidade de vida que uma cidade nova proporciona. Mas também não sou rico para fazer muito. Mas sinto que algo posso fazer com o pouco que tenho, que se resumo basicamente em vários anos de experiencia de trabalho como jornalista e conhecimentos profissionais que posso partilhar gratuitamente com os meus conterrâneos, e não só.
Por isso, decidi transformar a residência anexa à casa dos meus pais num centro de formação. Nela vamos organizar e mobilizar voluntários para oferecer aulas de alfabetização para adultos, ensino primário gratuito para crianças órfãos e deficientes e convidaremos estrangeiros voluntários que trabalham em Angola, e não só, para oferecerem cursos profissionais aos jovens da comunidade.
Estou convicto de que uma das formas eficazes para combater a extrema pobreza, a violência e a criminalidade é promover a educação gratuita e cursos profissional gratuitos ou muito baratos e incentivar o empreendedorismo na comunidade. Essa será a minha missão de vida de hoje em diante. Haja sol ou chuva, haja apoios ou não, até os últimos dias da minha vida.
Você gostaria de se juntar a mim neste esforço? Se sim, por favor entre em contacto: franciscocafala@yahoo.com.br ou (+244) 921 386764.
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