Desde menino mostrou ser um exímio “business man” (homem de negócios). Rapaz bem relacionado e muito traquina. Era o miúdo com quem os adultos e amigos podiam contar para qualquer negocio. Nessa altura, ainda com menos de 10 anos, o “miúdo Dias”, como era comummente chamado, já fazia o papel de intermediário e tirava dividendos na compra ou venda de qualquer artigo de uso pessoal ou doméstico que os mais velhos necessitassem.
“Sempre tive dom para os negócios. Aos 12 anos eu já conseguia dinheiro por meio próprio. Na altura já tinha três bicicletas compradas por mim, inclusive cheguei a comprar e oferecer um rádio cassete para o meu irmão mais velho, que tinha quase 10 anos a mais do que eu. Um pouco mais tarde já andava de moto pela cidade. Por isso era muito conhecido por todos” recorda Bartolomeu Dias, hoje um dos maiores empresários de sucesso em Angola.
Nasceu numa família pobre, na pacata aldeia de Malengue, município de Cuchi, situado na distante província do Kuando Kubango. O empresário Bartolomeu Dias não chegou a conhecer o pai. Perdeu-o quando tinha apenas três meses de idade. Cresceu criado pela mãe e pelo padrasto na cidade de Menongue, sede da sua terra natal.
Em 1980, aos 13 anos saiu da sua terra e imigrou para Cuba a fim de estudar. Regressou seis anos depois e em 1988 começou a desenvolver as suas actividades comercial. “No mundo empresarial desenvolvi várias actividades de negócio a nível do comércio geral. Vendia de tudo um pouco, desde roupas que conseguia no Brasil até começar a importar carros. Foram momentos muito trabalhosos, mas como tenho o dom dos negócios pude ultrapassar todas as dificuldades e ter sucesso financeiro” revelou.
O quotidiano do empresário Bartolomeu Dias é bastante preenchido com o trabalho e as viagens de negócios pelo mundo acomodado no seu moderno jacto particular. Revelou-se orgulhoso por conhecer as principais cidades do mundo. Normalmente, o seu dia de trabalho começa às 6 horas da manhã e só termina depois da 10 horas da noite. Durante a entrevista o seu telemóvel não parava de vibrar e o telefone sobre a secretária do seu escritório tocava de cinco em cinco minutos.
Casado e pai de uma família de oito filhos, aproveita os fins-de-semana para conviver com a família ou visitar os amigos. Na sua dieta diária não dispensa um bom “funje de cabidela”, o seu prato preferido. É casado e tem uma família constituída por oito filhos.
Questionado se sentia um homem realizado, instantes antes de responder ele esboçou um sorriso e respondeu sem hesitar. “Se eu dissesse que não me sinto realizado estaria a ser injusto comigo mesmo e com os outros, na medida em que hoje já tenho tudo que eu sonhei ter”. Mas o homem é um ser inconformado, que vive sonhando. E ele não ‘e uma excepcao. Pelo que lhe restam ainda realizar outros metas.
“O meu sonho é ser o maior empresário de Angola!” exclamou com entusiasmo e optimismo. Mais adiante, acrescentou espera que Deus lhe conceda mais anos de vida para poder ver Angola a trilhar os caminhos do desenvolvimento, “com as pessoas felizes e tendo aquilo que os permita viver e andar pelas ruas com os semblantes sorridentes”.
20 ANOS NA LIDERANCA DE UM DOS MAIORES GRUPOS EMPRESARIAIS DE ANGOLA
A sala da presidência do Grupo Bartolomeu Dias, no Morro Bento, nos arredores de Luanda, ocupa uma área superior a 100 metros quadrados. Ao fundo, uma grande mesa de madeira escura onde senta-se o presidente. Ao centro, a mesa oval de reuniões, com 12 confortáveis poltronas. Ao lado, num ponto central de destaque, uma surpreendente colecção de obras de artesanato angolano. Girafas, elefantes, palancas com cerca de um metro de altura, jazem perfiladas no chão do escritório, como animais de um parque selvagem esculpido em madeira a testemunhar as decisões que são ali tomadas.
Tudo é grande e transmite a preocupação com a ordem e a organização, características que parecem compor o estilo empresarial de Bartolomeu Dias Domingos, fundador do grupo que leva o seu nome e que preside há 20 anos, desde os amplos corredores da empresa, com iluminação natural, às salas de informática, contabilidade e de reuniões onde destaca-se a maqueta de um dos hotéis que estão a ser construídos.
Na fabrica do óleo Senhorita, marca que domina 40% do mercado, como informa Bartolomeu, sobressaem os grandes tanques de alumínio polido. O presidente caminha pelas alamedas de seu império atento a cada detalhe, desde simples objectos fora de lugar, até a alça de fixação de um tubo, que se projecta de forma perigosa, como uma lâmina afiada. Logo chama o chefe da área de produção e manda arrumar. Enquanto caminha, dá ordens: em inglês para os funcionários indianos que trabalham nas linhas de produção de óleo de soja e de sabonetes e, em português, para os chineses que constróem os seus hotéis e condomínios.
Ao lado da presidência, uma sala de ginástica apetrechada com equipamentos onde destacam-se bicicletas, esteiras e sacos de areia para serem esmurrados nos treinamentos de boxe. Ali, Bartolomeu prepara-se para a luta diária à frente de suas 12 empresas que, além da produção de óleo e sabão, incluem transporte rodoviário e aéreo, segurança patrimonial, informática, construção e turismo. Todas rentáveis, segundo ele. Juntas, empregam mais de três mil pessoas.
“Defino-me como um quebra barreiras” resume o executivo. E completa o que, para ele, é a receita do sucesso: “O que caracteriza o grande empreendedor é a persistência. Jamais deve-se pensar que o objectivo não será alcançado. O segredo é simples. São as pessoas que complicam.”
A persistência de Bartolomeu Dias parece que tem sido recompensada. Hoje, aos 41 anos de idade e duas décadas de trabalho, tem plantadas as bases de uma organização empresarial que cresce. Tudo parece ter começado cedo para Bartolomeu. Diz que, de Cuba, trouxe os ensinamentos e o treino na convivência com pessoas de nacionalidades distintas, que forneceram régua e compasso para que pudesse montar os empreendimentos na sua volta a Angola.
Inicio de carreira
Em 1988, com apenas 21 anos, iniciou sua actividade comercial como muitos angolanos faziam à época: comprar roupas no Brasil para revender aqui. O passou seguinte, após juntar algum capital, foi a importação de viaturas usadas da Bélgica para colocar no mercado local. E, assim, de negócio em negócio, passou a amealhar património.
“Após independência, não havia família de recursos em Angola” diz Bartolomeu. Ele lembra que, depois de 1975, com a saída dos colonizadores, o estado nacionalizou as propriedades. “Poucos tinham reservas que pudessem sustentar uma economia privada. Dessa forma, não havia mercado livre” explica.
Em 1992, o primeiro lance de ousadia: lançou as bases da Ango-Inform, do sector de informática que, além da venda de equipamentos, ofereceu também a primeira escola de Luanda para a formação de técnicos nessa área.
Mas não parou de incrementar suas actividades comerciais, agora em larga escala, com a importação de perecíveis que chegavam a bordo de grandes navios frigoríficos. “Trazíamos navios inteiros de frango e carne” recorda. Os pagamentos, com recursos próprios, eram feitos por meio de cartas de crédito e todos os riscos assumidos pelo importador. “Depositávamos o dinheiro na conta e o banco abria uma carta de crédito, através do BCI e BPC. Os bancos não financiavam porque não podíamos oferecer garantias”, explica.
Os riscos assumidos eram consideráveis. Qualquer problema nas câmaras frias do navio podia pôr tudo a perder. Mas as compensações eram, também, proporcionais. Bartolomeu revela que os navios custavam cerca de 6 milhões de dólares, mas as margens líquidas de lucros, se não houvesse turbulências, podiam chegar à casa dos 4 milhões de dólares. A concorrência, nos primeiros tempos, era pequena. Eram poucos os que se aventuravam a assumir riscos tão grandes. “Só existia a Frescangol”, recorda. “Temos de respeitar os empresários que tiveram a ousadia de fazer negócios no passado”, avalia agora.
A estratégia de empreender negócios relacionados com a produção e a distribuição de alimentos tem fundamentos em sua própria intuição. “Comida vende em toda a parte do mundo. As únicas indústrias que não estão em crise são as ramo de alimentos,” julga.
Outro passo importante foi dado em 1994 com a criação da empresa de logística Diexim, que ostenta uma frota de mais de 200 caminhões de transporte. Esta é a maior cliente do pais da gigante brasileira Randon, fabricante de carroçarias e equipamentos para carretas e camiões. O grupo tem também uma empresa de transporte aéreo, com oito aviões, que explora linhas regulares para o interior do país. “As grandes economias nascem assim”, filosofa. “A pessoa tem de estruturar-se se quer ir longe”.
O empirismo dos primeiros tempos foi cedendo espaço à estratégias planejadas, com contratação de economistas, profissionais de marketing e de pesquisa de mercado, além de engenheiros indianos e chineses para arrancar os empreendimentos industriais e imobiliários mais ambiciosos. “No passado era no olho” lembra Bartolomeu.
Os novos tempos da economia angolana estão a exigir tecnologias avançadas e planejamento, num mercado consumidor composto por mais de quatro milhões de pessoas. Esse mercado começa a entrar numa nova era de organização de redes comerciais, onde há mais competição e onde começam a surgir, também, consumidores melhor informados e, portanto, mais exigentes. As tomadas de decisão devem, a partir de agora, serem regidas por um novo diapasão.
Nova rede industrial
A entrada no sector de produção de óleo alimentar e de sabonetes, através da
NORI – Nova Rede Industrial, foi antecipada com estudos de mercado e identificação de fontes seguras de abastecimento, o que envolveu a solução de gargalos logísticos como a importação de óleo bruto de soja para ser refinado localmente, além da compra de equipamentos industriais e matérias primas em fornecedores internacionais e contratação de mão-de-obra especializada em outros países.
O engenheiro de produção Bala Murugan, de 27 anos, por exemplo, é um desses profissionais qualificados que veio ajudar Bartolomeu e entrar na nova onda tecnológica. Ele veio da Índia, em Março de 2007, para montar a fábrica de óleo, junto com outros quatro jovens engenheiros de seu país. Técnicos chineses foram trazidos para as obras de hotéis que sua construtora ergue na cidade de Menongue, a Leste do pais, e para os empreendimentos imobiliários de Luanda.
O grupo evoluiu do estágio de importador de produtos de consumo para ingressar no sistema produtivo. Hoje, com a conquista de fasquias consideráveis dos segmentos onde atua, Bartolomeu diz que não há segredos para o sucesso. “Temos dinheiro e não temos medo”. Esta é a sua regra de ouro.
Embora domine a maior parte do mercado local de óleo de soja, não pretende verticalizar seus negócios na direcção da produção agrícola. Informa que um grupo brasileiro está a identificar áreas para o plantio do grão, mas que ele não pretende envolver-se no novo segmento. Tem planos para construir uma nova refinaria em Benguela e posicionar-se desde já para vir a absorver a produção local de soja. Pretende crescer, também, horizontalmente ao agregar valor aos negócios existentes.
Dentro desta filosofia, pretende fabricar localmente as garrafas de plástico que utiliza para o óleo, ao invés de importá-las. Para tanto, vão trazer a resina da Arábia Saudita e equipamentos de produção da Bélgica, África do Sul e Taiwan. Outro avanço será a abertura de uma nova fábrica para produção de sabão em barras, para lavar roupas.
Investimentos no sector Imobiliário
A entrada no negócio imobiliário foi outra iniciativa que se revelou promissora. A Imobiliária Sul do Kwanza, pertencente ao grupo, orienta-se para condomínios de médio e alto padrões, com casas cujos valores de vendas variam dos USD 300 mil aos USD 450 mil. As primeiras 87 casas foram entregues em Outubro do ano passado e têm sido revendidas pelos primeiros proprietários por valores que chegam aos 1 milhão de dólares.
Bartolomeu informa que vão arrancar agora com um novo empreendimento na Avenida Brasil, Vila Alice, em Luanda. Serão residências de luxo, no padrão T5 e valor aproximado inicial de USD 400 mil.
Bartolomeu concorda que o mercado imobiliário está super aquecido e que há muito oportunismo. “Temos que ser empresários responsáveis. Não podemos pegar pessoas desavisadas e darmos a catana” diz ele. Avalia, contudo, que os preços altos tendem a baixar e os lucros folgados não irão resistir por muito tempo. “A concorrência vai aumentar, os preços vão baixar e a venda maluca vai acabar” antecipa.
Segundo ele, a espera reviravolta do mercado vai fazer com que casas vendidas a USD 4 milhões hoje caiam para USD 1 milhão em breve. Menciona como exemplo dessa tendência os telemóveis, que custavam USD 1 mil quando chegaram ao mercado e hoje não passam dos 50 dólares.
“A especulação vai acabar nos próximos dois anos” avalia, ao antecipar as boas novas de mercado, que vão acrescentar uma novo elemento ao cenário da nova economia angolana.
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