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Fábricas e mão de obra da Ásia são obstáculos a promessas de Trump

A sofisticada cadeia de suprimentos de produtos eletrônicos e a imensa força de trabalho da Ásia são duas pedras no caminho da promessa do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, de fazer com que as empresas americanas tragam para casa os empregos fabris.

Quando a americana Jabil Circuit Inc., terceira maior fabricante terceirizada do mundo por receita, precisou elevar rapidamente a produção de seus componentes eletrônicos, há alguns anos, a empresa foi capaz de acrescentar 35 mil trabalhadores à sua equipe na China em menos de seis semanas.

“Em nenhum outro país você consegue crescer assim tão rapidamente”, diz John Dulchinos, diretor de manufatura digital da Jabil, que fornece para empresas como Apple Inc. e Electrolux SA. “Você tem a capacidade de agir rapidamente e há uma cadeia de suprimentos de eletrônicos realmente forte na Ásia, centrada em torno da China.”

A experiência da Jabil ilustra a função desempenhada pelo exército de trabalhadores migrantes da China e o papel que a Ásia representa há décadas na cadeia de suprimentos da produção global de eletrônicos. É uma questão que Trump terá que enfrentar caso queira levar uma produção de larga escala de volta à economia americana, a qual perdeu mais de 5,4 milhões de empregos no setor de manufatura e 82 mil fábricas entre 1997 e 2013, segundo estimativas do Instituto de Política Econômica, um centro de estudos de Washington.

“Eu vou fazer a Apple começar a fabricar seus computadores e seus iPhones no nosso território, não na China”, disse Trump em março, um tema que ele repetiu ao longo de toda a sua campanha. “Em que nos ajuda eles fabricarem na China?”
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O presidente eleito tem ameaçado impor uma tarifa de 45% sobre os produtos importados da China pelos EUA. A medida poderia prejudicar a produção da Apple, Dell Technologies e HP Inc. na China. Ela também poderia reduzir o produto interno bruto da China em 4,8% e as exportações chinesas para os EUA em 87% em três anos, de acordo com Kevin Lai, da unidade da firma japonesa de serviços financeiros Daiwa Capital Markets em Hong Kong.

É verdade que existe a possibilidade de Trump, como presidente, baixar o tom da retórica da sua campanha. Desde que foi eleito, na semana passada, ele tem indicado que pode buscar um meio-termo em outras questões de políticas de governo.

Um imposto severo sobre as importações chinesas poderia acelerar a migração de fábricas de eletrônicos da China para outros países asiáticos de custo mais baixo, como o Vietnã, em vez de impulsionar a produção de eletrônicos nos EUA, advertem alguns analistas.

Num comunicado, a Apple afirmou ter criado mais de 2 milhões de empregos nos EUA, entre engenheiros, funcionários de lojas e de serviços de atendimento ao consumidor e motoristas para entrega de mercadorias. A empresa informou ainda que trabalha com mais de 8 mil fornecedores americanos e está “investindo pesadamente em empregos e inovação nos EUA”.

A HP não quis comentar. Um porta-voz da Dell disse que a companhia espera colaborar estreitamente com o governo na “priorização de questões de TI, como segurança, comércio e computação em nuvem”.

Embora as companhias de eletrônicos dos EUA já fabriquem no país equipamentos sofisticados e produzidos em baixo volume, como é o caso do computador Mac Pro, da Apple, o presidente Barack Obama e o senador democrata Bernie Sanders já questionaram se a produção em massa de eletrônicos — e especificamente do popular iPhone — também pode ser feita nos EUA de forma lucrativa.

A resposta, de acordo com especialistas, é que embora a montagem do smartphone da Apple nos EUA seja teoricamente possível, isso é altamente improvável devido à dificuldade de realocar para o Ocidente a linha de montagem e outras partes da dispersa cadeia de eletrônicos da Ásia.

Embora os projetos dos iPhones sejam desenvolvidos na Califórnia, a Apple utiliza chips de memória de fornecedores sul-coreanos e telas — que são o componente mais caro do aparelho — produzidas por empresas japonesas. A montagem do smartphone é feita por firmas taiwanesas, como a Hon Hai Precision Industry Co., conhecida como Foxconn, e a Pegatron Corp., que tem fábricas na China continental. A Apple também usa fornecedores dos EUA para produzir no país componentes como vidro e componentes de radiofrequência.

Trump “não seria capaz de concluir [esse tipo de iniciativa] durante a sua presidência”, diz Alberto Moel, analista da firma americana de pesquisa Sanford C. Bernstein. Outra barreira para levar a manufatura de volta aos EUA é que as empresas americanas de eletrônicos com frequência terceirizam a produção, o que faz com que elas não tenham controle total sobre onde seus produtos são feitos.

Com a China sendo hoje o maior mercado consumidor de smartphones e outros dispositivos do mundo, faz sentido para as empresas americanas e as fabricantes que montam os produtos delas manter suas bases de produção na Ásia, diz Steve Chuang, presidente do Conselho da Indústria de Eletrônicos de Hong Kong, que representa fabricantes na China continental. Alguns empregos de manufatura na China podem ser substituídos por máquinas se a produção for transferida para os EUA, alertam economistas.

Em dezembro, o diretor-presidente da Apple, Tim Cook, disse no programa “60 Minutes”, da rede de televisão americana CBS, que a empresa fabrica seus produtos na China, em parte, porque os trabalhadores chineses possuem um tipo de habilidade técnica cada vez mais difícil de encontrar nos EUA. “Esta é a verdade”, disse Cook.

Mesmo que a Apple encontre trabalhadores suficientes para montar seus produtos nos EUA, o custo de fabricar um iPhone 7 pode subir entre US$ 30 e US$ 40, estima Jason Dedrick, professor da Faculdade de Estudos de Informação da Universidade de Syracuse. Já que a mão de obra representa só uma pequena parcela dos custos totais de um aparelho eletrônico, a maior parte das despesas mais altas viria do envio de peças para os EUA.

Se os componentes do iPhone também fossem produzidos nos EUA, os custos do aparelho subiriam em até US$ 90, segundo a pesquisa que Dedrick fez com Greg Linden, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Ken Kraemer, da Universidade da Califórnia, em Irvine. Isso significa que, se a Apple decidir repassar todos esses custos para o consumidor, o preço do aparelho no varejo poderia subir cerca de 14%.

FONTE: Wall Street Journal

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